SOBRE A MENINA SÍRIA QUE SE RENDE AO CONFUNDIR CÂMERA FOTOGRÁFICA
COM UMA ARMA

Quando ainda
menina, lia muito Drummond. Achava um exagero ele dizer que chegaria um tempo
de absoluta depuração, em que “(…) os olhos não choram./E as mãos tecem apenas
o rude trabalho./E o coração está seco.” Mas hoje eu vi no noticiário uma cena
muito peculiar, e a verdade do poema me veio à alma, imediatamente. Um
fotógrafo, ao tentar retratar a vida das crianças sírias, conseguiu captar não
a frieza deste mundo, mas já a sua consequência. Ele enquadra a criança em sua
lente e essa levanta os braços, rendida, pensando ser uma arma.
Deus! Que
mundo é este, onde a inocência caminha de mãos levantadas e a alma do mundo não
sangra, e os olhos dos homens não choram, e a dor já não nos pode chocar? Que
mundo é este cujos avanços tecnológicos não encontram eco na evolução moral dos
indivíduos e onde só o que conta são os cifrões?
Um mundo
cujo colorido já não é convidativo aos olhos. Onde a beleza é preterida. Onde a
pureza dos pequeninos ainda é roubada e banhada do sangue de seus pares, de
seus pais e, não raro, do seu próprio sangue. Um mundo cujas crianças já têm a
esperança prematuramente envelhecida pela dor que transborda dos noticiários e
que não raro floresce ao seu lado. Um mundo em que, a cada dia, o homem teme
mais e mais o próprio homem.
Frequentei um
curso, há um tempo, e algo me deixou sobremodo perplexa. O instrutor
mostrava-nos diversos vídeos com acidentes causados por veículos. Em dada
situação, um homem fora atropelado por não olhar para a sua direita quando um
carro vinha na contra mão. Alguns dos colegas, a maioria jovens entre 18 e 25
anos, riram da cena. Noutro atropelamento, a maioria riu. Esboçaram alguma
comoção, leve, quando uma criança foi atropelada. Mas, pasmem: um cachorro foi
atropelado e, nesse momento, houve uma comoção geral: “Ah, pobrezinho! Tadinho
dele!”.
A
banalização da dor do outro é hoje tamanha que os jovens se identificam mais e
se comovem mais com a dor de um animal que com a dor de um homem ou de uma
criança.
A dor do
outro é estatística. “Quanta mortes, mesmo, na Síria? Quantos desabrigados no
Acre? Quantas mulheres são agredidas por ano? Quantas crianças são estupradas
por parentes próximos?” Não! Essa postura desmerece o infinito que somos,
desautoriza a angelitude a que estamos destinados, desmente a centelha do Eterno
que permeia a alma de cada um de nós! FONTE:
Por:
Copyright© 2018 @Kbym
Nenhum comentário:
Postar um comentário