IN MEMORIAM: FRANCISCO DAS CHAGAS TOMAZ, O ETERNO “CHICO SÉRGIO”: UMA HISTÓRIA DE TRABALHO, CORAGEM E DESENVOLVIMENTO EM TARAUACÁ
-06 DE FEVEREIRO DE 1932/30 DE OUTUBRO DE 2026-
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| Foto: Seu Chico Sérgio: 06/02/1932-30/10/2026/Arquivo |
Documentário: Tarauacá : Uma Trajetória Histórica:
Há pessoas
que passam pela vida de uma cidade. Outras ajudam a construir a sua história.
Francisco das Chagas Tomaz, carinhosamente conhecido como “Chico Sérgio”,
pertence àquela geração de homens que deixaram muito mais do que lembranças:
deixaram exemplos, caminhos e marcas que o tempo jamais conseguirá apagar.
"Conheci seu “Chico
Sérgio” ainda criança, uns dez ou doze anos. Meu pai Francisco Batista dos Santos (Cassimiro), foi
durante muito tempo um de seus inúmeros trabalhadores na sua empresa. Um ser humano respeitado por todos os tarauacaenses e que cultivava amizades com seu trabalho e humildade".
"Não foram poucas ás vezes que meu pai ou minha mãe pediu: Fulano, vai pegar um kilo de açúcar no Seu Chico". Lá ía nós, cheio de vergonha andando nos trapiches da ponte da Aninga até chegar na Casa Aurora. Ficava olhando quando todos saíam do comercio para podermos dar o recado de nossos pais, receber o produto e ser anotado na velha e boa caderneta de papel no balcão.
Lembro-me bem. Passávamos pela loja do Chico Sombra, Seu Barú para chegar em nosso destino. Sempre estava por lá uma garotinha muito bela e sorridente que mais tarde iria conhecer como Millena Tomaz. Sua loja era a mais sortida de todas. Tinha de tudo. Sacas e mais sacas de açúcar, latas de bolachas, amontoados de tecidos, bebidas e outros produtos.
Tive o
prazer de fazer um documentário sobre Tarauacá e enaltecer a carreira de Seu
"Chico Sérgio". Sempre ouvindo seus relatos gloriosos de quando trazia as
mantas de peixe Pirarurcu que abastecia as casas tarauacaenses, gás, açúcar e
outros. Sempre gostava de conversar com ele para poder ouvir mais uma vez de
quando foi feita a Leal & Maia, histórias do Carrapicho (José Galera dos
Santos) e de quando pousou no rio o primeiro avião".
Falar de
Francisco das Chagas Tomaz, o nosso inesquecível Chico Sérgio, é voltar no
tempo e visitar uma Tarauacá de outros costumes, de outros ritmos e de grandes
desafios. Nascido em 06 de fevereiro de 1932, Chico Sérgio fez parte de uma
geração de homens que aprenderam desde cedo que a vida exigia coragem,
disposição, honestidade e muito trabalho. Sua trajetória se confunde com parte
da própria história do desenvolvimento comercial de Tarauacá, município acreano
onde construiu sua caminhada, conquistou respeito e se tornou uma figura
conhecida e admirada por muitos. Era daqueles homens cuja presença não passava
despercebida. Tinha personalidade própria, jeito característico de conversar,
de negociar e de se relacionar com as pessoas. Quem conviveu com ele certamente
guarda na memória sua imagem tão peculiar: sempre usando uma camisa de botão,
bem ao seu estilo, e quase sempre com um palito na boca. Eram pequenos detalhes
que compunham sua identidade e que, hoje, ganham um significado especial na
memória de quem sente saudade.
Chico Sérgio
não foi apenas um comerciante. Foi um homem que ajudou a movimentar a economia
local, contribuiu para o crescimento do comércio e participou ativamente de uma
época em que empreender em Tarauacá era uma verdadeira demonstração de coragem.
Naqueles tempos, as dificuldades eram muitas. A distância dos grandes centros
comerciais, as condições de transporte e os desafios de abastecimento exigiam
dos comerciantes criatividade, determinação e capacidade de enfrentar
obstáculos. Mas Chico Sérgio conhecia bem o caminho dos negócios. Realizava
viagens e trazia mercadorias de Manaus, transportadas em embarcações conhecidas
como balsas, abastecendo seu comércio com produtos que despertavam o interesse
da população. Imagine a importância dessas viagens numa época em que conseguir
mercadorias não era tarefa simples! Cada chegada de embarcação representava
novidades, oportunidades e movimentação para a cidade. Era uma época em que o comércio
tinha outro significado: cada produto precisava ser conquistado com esforço,
cada negociação exigia confiança e cada comerciante tinha uma responsabilidade
muito maior do que simplesmente vender. Chico Sérgio entendia esse espírito e
fazia do trabalho uma missão.
Sua
contribuição também pode ser medida pelas oportunidades que proporcionou a
tantas famílias. Ao desenvolver suas atividades comerciais, gerou muitos
empregos, ajudando homens e mulheres a encontrarem no trabalho uma fonte de
sustento e dignidade. Quantas pessoas passaram por suas atividades? Quantas
famílias tiveram suas vidas movimentadas pelas oportunidades que ele ofereceu?
Talvez nem todos esses números estejam registrados nos documentos, mas
permanecem vivos na lembrança de quem acompanhou sua trajetória. Um comerciante
que gera empregos não movimenta apenas mercadorias: movimenta sonhos, alimenta
famílias e participa da construção social de uma comunidade. Chico Sérgio
compreendia, na prática, que o desenvolvimento de uma cidade também dependia da
iniciativa de pessoas dispostas a investir, trabalhar e acreditar no futuro.
Por isso, conquistou respeito. Seu nome não ficou conhecido apenas pelas
atividades comerciais, mas também pela presença marcante na vida cotidiana de
Tarauacá. Era um daqueles personagens que ajudavam a dar identidade à cidade,
homens que, mesmo sem ocupar necessariamente os grandes espaços da política,
exerciam influência por meio do trabalho, da convivência e das relações
humanas.
Mas nenhuma
história de vida está completa sem falar da família, o patrimônio mais precioso
que alguém pode construir. Ao lado de sua esposa, Helena da Silveira Mendonça
Tomaz, Chico Sérgio formou uma família e compartilhou os desafios e as alegrias
de uma caminhada que resultou em quatro filhos: ‘Fatinha’, ‘Serginho’, ‘Sandra’
e ‘Milenna’. A família foi parte fundamental de sua história, o lugar onde os
dias de trabalho encontravam descanso e onde os valores construídos ao longo
dos anos ganhavam continuidade. Por trás daquele homem de negócios, das
viagens, das mercadorias e da camisa de botão, existia também o marido, o pai e
o homem que carregava responsabilidades, sonhos e esperanças. A vida familiar
representa uma dimensão especial de seu legado, pois é nela que permanecem
muitas das lembranças mais íntimas, os ensinamentos, os gestos, as conversas e
as histórias que atravessam gerações.
Hoje, quando
olhamos para a história de Tarauacá, é necessário reconhecer a importância de
personagens como Francisco das Chagas Tomaz. Homens que viveram em tempos
difíceis, que enfrentaram as limitações de uma cidade distante dos grandes
centros e que, mesmo assim, ajudaram a construir as bases do desenvolvimento
que conhecemos. Chico Sérgio pertence a uma geração que não esperava as coisas
acontecerem: fazia acontecer. Acreditava no trabalho, apostava no comércio e
encontrava nas dificuldades motivos para continuar. Sua história merece ser
contada porque a memória de uma cidade não é formada apenas por datas oficiais,
inaugurações ou nomes de ruas. Ela também é feita de pessoas comuns em suas
origens, mas extraordinárias em suas contribuições. São os comerciantes,
trabalhadores, pioneiros e empreendedores que, com suas iniciativas, ajudam a
escrever os capítulos mais importantes da história de um povo.
E como é bom
recordar! Recordar aquela figura de camisa de botão, o palito na boca, o jeito
próprio de caminhar, conversar e fazer negócios. Recordar as viagens a Manaus,
as mercadorias chegando, o movimento do comércio e uma Tarauacá que crescia aos
poucos, sustentada pela força de homens que acreditavam no amanhã. Para quem
conviveu com Chico Sérgio, certamente existem lembranças que nenhuma fotografia
consegue traduzir e palavras que nenhuma homenagem consegue alcançar
completamente. O tempo passa, as cidades mudam, as fachadas desaparecem e novas
gerações ocupam os espaços, mas determinadas pessoas continuam presentes na
memória coletiva.
Francisco
das Chagas Tomaz, o nosso Chico Sérgio, é uma dessas pessoas. Seu legado não
está apenas no comércio que ajudou a desenvolver ou nos empregos que
proporcionou, mas principalmente na história que construiu e no respeito que
conquistou. Sua trajetória merece permanecer viva nas páginas da memória de
Tarauacá, como reconhecimento a um homem que fez do trabalho sua marca e da
família sua referência.
Porque
existem homens que deixam saudade. Existem homens que deixam exemplos. E
existem aqueles que deixam um pouco de si na própria história de uma cidade.
Chico Sérgio pertence a essa última categoria. Seu nome continuará sendo
lembrado com carinho, respeito e gratidão por aqueles que conheceram sua
caminhada.
Tarauacá tem
uma história, e Chico Sérgio faz parte dela. Uma história que o tempo não
apaga, porque a saudade mantém vivos aqueles que jamais deveriam ser
esquecidos. IN MEMORIAM
Por: Flávio Pereira dos Santos
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