"A SAGA DE ALTEVIR LEAL EM TARAUACÁ"
POR: CHICO ARAÚJO
| Foto disponível em: https://www.facebook.com/silvia.oliveira.3781995 |
Em Tarauacá, onde a brisa da infância e da juventude me embalou, Altevir Leal era mais que um latifundiário ou senador: era uma lenda viva, um tecelão de histórias que costurava terras, poder e sonhos no coração do Acre. Vestido sempre de branco, como um farol reluzente, lembrava Omar Bandeira da Silva, comerciante e juiz de paz. Na sua Casa Branca, na Rua Cel. Juvêncio de Menezes, Altevir orquestrava verdadeiros festins, as famosas “churrascadas”. Ali, sob o brilho de seus olhos, que faiscavam como estrelas, ele narrava “causos” da política brasiliense, entrelaçando mistério e poder. Suas palavras, bordadas com vivacidade, acendiam minha alma infantil, plantando em mim o sonho de desbravar a capital que ele pintava com cores tão vibrantes.
Sob o teto acolhedor de Dona Almira Coelho, minha ligação com Altevir se fortalecia, nutrida pela amizade que ele cultivava com meus pais, José Ferreira de Araújo, o Beira’água, e Dona Geraldina da Silva, hoje estrelas no firmamento. Dona Almira, percebendo meu encanto, abria as portas da Casa Branca, permitindo que eu mergulhasse nas histórias de Altevir. Sabendo do meu amor por livros, ele me presenteava com obras sobre Brasília, alimentando minha imaginação faminta. Ao entardecer, o carteado animava a casa, reunindo amigos, risos e sonhos. Eu, pequeno sonhador, viajava por horas nos contos que me transportavam à capital, onde hoje danço com essas memórias há mais de três décadas.
Nessas
noites mágicas, Altevir invocava nomes que ecoavam como lendas. Falava de José
Ruy da Silveira Lino, cuja voz valente ressoava pelo Acre, hoje silenciada pelo
tempo. Ruy foi nomeado governador do Território Federal do Acre por João
Goulart, deixando o cargo para se eleger deputado federal em 1962. Citava
também JG de Araújo Jorge, filho ilustre de Tarauacá, que alçou voo para Rio
Branco e depois para o Rio, onde se tornou jornalista, advogado e político. Com
quatro mandatos como Deputado Federal (1971-1987), JG deixou um legado de 15
livros em estilo modernista e romântico, vendendo cerca de 500 mil exemplares.
Seu poema Canção do Exílio Brasileiro (1945) ainda sussurra, delicado: “Minha
terra é um canto de saudade / Um grito preso na garganta do vento”.
Outro nome
que dançava em seus causos era Nabor Teles da Rocha Júnior, hoje com 94 anos,
que, como eu, respira os ares de Brasília. Nabor foi deputado estadual
(1962-1974), deputado federal (1975-1983) e, em 1982, elegeu-se governador do
Acre, tomando posse em 15 de março de 1983. Mais tarde, brilhou como senador
(1987-2003). Altevir, por sua vez, marcou sua trajetória como senador em dois
mandatos como suplente (1974-1978, assumindo a vaga de Geraldo Gurgel de
Mesquita, governador do Acre entre 1975-1979; e 1983-1987, no lugar de José
Guiomard, falecido em 1983), pela ARENA e depois pelo PDS, fincando sua
influência no regime militar. Essas figuras, cheias de vida e história, dançam
nas páginas do meu livro Quando Convivi com os Ratos (Uiclap, 2024), disponível
em loja.uiclap.com/titulo/ua76262.
As
“churrascadas” de Altevir eram mais que encontros; eram o pulsar vibrante de
Tarauacá, um entrelaçar de poder, terra e laços humanos. Suas histórias, como
fagulhas, acendiam meu peito, guiando meu caminho até Brasília, onde hoje traço
estas linhas com o coração cheio de saudade. Em Quando Convivi com os Ratos,
retratei Altevir, Ruy Lino, JG de Araújo Jorge e Nabor Júnior, personagens que
valsam na memória do Acre, tecendo um tapete de lutas, sonhos e saudades. Suas
vozes, suaves, ainda ecoam em mim, como um canto que embala o coração e ilumina
o futuro. Fonte: Chico Araújo
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