domingo, 19 de abril de 2015

TARAUACÁ: 102 ANOS

TARAUACÁ: UM PASSADO QUE SE APAGA 
Isaac Melo



“Recordar a vida não significa estar preso ao passado. O passado não é uma lembrança estática, mas sim uma força que segue movendo cada indivíduo ao longo dos anos”. Essas palavras que se encontram na orelha do livro de contos, A Figura Refletida, do ex-governador (63/67) do Acre Altino Machado, nos ajuda a refletir e situar a problemática acerca do passado tarauacaense. Isso também nos faz pensar numa distinção básica.

Há uma grande diferença entre: falta de recursos, sobretudo financeiro e incapacidade política. O primeiro, é algo externo, do qual uma administração depende de recursos oriundos, digamos, de cima (município>Estado>União). Enquanto que incapacidade política é algo que está atrelado especificamente a quem governa, em último caso, trata-se de competência do governante em aplicar aquilo que recebe. O problema de Tarauacá é incapacidade política. A cidade está às portas de seu centenário, e uma pergunta ainda não foi feita, muito menos respondida: que passado Tarauacá tem conservado? A resposta, deveras, não é das mais satisfatórias.

Não temos uma casa sequer tombada como patrimônio histórico da cidade, um centro de cultura, um arquivo público, que dirá um museu. Não creio que sejamos tão ingênuos assim para pensarmos que isso é coisa de cidade grande. O argumento de que a cidade não tem estrutura financeira para isso, não me é compreensível. O que ocorre é que a maioria daqueles que são eleitos para assumir uma função pública, não são inteligentes o suficiente para compreender que o passado não é algo descartável, mas fator imprescindível para a compreensão e a própria constituição da identidade de um povo. Passado apagado significa parte da memória histórica também apagado.

O Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Nacional (IPHAN), diz que o “Patrimônio Histórico pode ser definido como um bem material, natural ou imóvel que possui significado e importância artística, cultural, religiosa, documental ou estética para a sociedade. Estes patrimônios foram construídos ou produzidos pelas sociedades passadas, por isso representam uma importante fonte de pesquisa e preservação cultural”. Fato é, que cada cidade também pode criar regras baseadas no IPHAN para definir seu próprio patrimônio histórico, como fez Rio Branco-Ac, que tombou várias casas localizadas no centro da cidade, às margens do Rio Acre, formando assim o seu importante Centro Histórico.

Infelizmente, Tarauacá não tem mais quase nada de construções dos primeiros anos de sua história, e o pouco que ainda resta deteriora-se pela ação do tempo e pelo descaso humano. Salvo algumas exceções, como a restauração do Teatro José Potyguara, ainda na administração do prefeito Jasone Silva, notamos um grande descaso dos prefeitos, sobretudo do atual, pelo patrimônio histórico e cultural de Tarauacá.

Alguns não vêem valor algum nessas construções, que não passam de um amontoado de entulhos. Mas para quem ainda não perdeu a sensibilidade, há uma história, um tempo, uma vida. Não é tanto o valor material que está em jogo, é sentimental também, aquilo que mexe em nossas entranhas, que impulsiona a vida e nos faz olhar o passado não com melancolismo, mas com esperança de que hoje é o tempo de realizarmos o que ontem era uma utopia.

De tudo isso, fica-nos uma certeza e uma alerta: ou nos voltamos, urgentemente, para a conservação e resgate de nosso patrimônio histórico e cultural ou corremos o risco de os perdermos, definitivamente. Não queremos imaginar como foi o nosso passado, queremos que ele faça parte do presente, por meio de seus elementos conservados, e assim, podermos olhar para nossa história sem medo de continuarmos a repetir os erros de sempre.

Por: Isaac Melo

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